Quem quiser um rótulo, pode apelar para MBP, ou seja, música brasileira planetária. Sambas, bossas, baiões e maracatus turbinados por toques eletrônicos e pegadas funks. Mas como fazer essa fórmula sem patinar no escorregadio terreno da world music?
Por Antonio Carlos Miguel
( Crítico musical do jornal O Globo)
Kiko Klaus + Carlos Jaramillo mostram ter encontrado a resposta em “Mesmalua”, um disco que esbanja identidade, frescor e também um apurado padrão musical e técnico. Ou seja, em sua estréia, o duo pernambucano-colombiano parece unir o melhor de muitos mundos.
O currículo dos dois, que se conheceram em Los Angeles, onde estudaram música, acumulando depois trabalhos nos EUA e na Europa, explica em parte o resultado musical conseguido agora em “Mesmalua”. Mas essa experiência e a contribuição de músicos identificados com o projeto da dupla – incluindo instrumentistas de uma das bandas espanholas de maior sucesso no momento, Macaco, e também o percussionista brasileiro Marcos Suzano – não são suficientes para garantir um bom disco. O segredo está no repertório mostrado. Independentemente dos rótulos, do perfeito acabamento sonoro temos aqui uma rica safra de canções. Belos e inventivos sons e poesia sob o mesmo sol, a mesma lua.
Klaus (também bom cantor) assina as dez canções de “Mesmalua”, algumas com Jaramillo, outras com diferentes parceiros, mostrando habilidade para injetar novidade em gêneros mais do que batidos.
Na abertura do disco, “Partida” é um samba cheio de quebras inesperadas, que resulta em irresistível ginga, perfeito cartão de visitas e intenções da dupla.
Em seguida, “Uma vela” é uma neobossa urbanóide, com letra que, sem cair no panfleto, fotografa poeticamente a miséria social das nossas grandes cidades: “Mas que caridade / pode criar a menina triste do sinal? / A calçada, os paralelepípedos / Os bares, os trilhos / São meus, mas são dela / (...) Lá se vai a vida / Não se leva nada / Fora a verdade / Que está perdida”.
Há também “Avenida”, um híbrido maracatu-rock de pulsação urgente, em letra igualmente urbana.
Ou a cativante bossa pop “Mesmalua”, na qual o violão de Klaus é comentado pela guitarra de Jaramillo, enquanto baixo e percussão armam deliciosa cama, e a letra cita no fim um clássico de João Donato e Gilberto Gil: “Beira do mar / Lugar comum”.
Assim como o samba “A flor”, que capricha no sincopado para contar a história de um daqueles amores surpreendentes: “Que eu sonhava sem saber / Que meu sonho era realidade / Mas quando sonhava queria dizer / Te amo / Mesmo sem saber teu nome”.
Bons exemplos não faltam, e a balada viajante “Isaura” é mais um; nela o poeta entrega os pontos e usa disso como mais um artifício de sua cantada: “Teria que apagar tudo / Nem candeeiro, nem vela / De muito longe poderiam revelar / Tua aura, Isaura dos desejos mais loucos / Das cartas marítimas do meu corpo / Se provo do teu olhar”.
Como os versos acima, esse release é tentativa de transmitir em texto o que as canções de “Mesmalua” nos proporcionam. Afinal, como o músico e inventor suíço-baiano Walter Smetak sintetizou numa frase, “Falar sobre música é uma besteira, fazer é uma loucura!” E desse fazer Klaus + Jaramillo entendem de sobra. Que outros ouvidos, corações e mentes abertos possam sentir também.





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