Autobiografia by 27.08.09

Meus primeiros contatos com a música viva vieram através dos aboios cantados pelos vaqueiros no interior de Pernambuco, os repentes na feira de Caruaru e as cirandas e la ursas na ilha de Itamaracá. Meus pais alugavam uma casinha na beira-mar em Itamaracá e tinham um sítio na cidade de Bonito, onde havia algum gado e eu sempre acompanhava os vaqueiros na hora de juntar os animais. Era impressionante ver os bois e vacas se juntando simplesmente pela chamada do canto. Ali foi o princípio de todo o feitiço... Conto um pouco disso na canção O Samba Chora, do meu primeiro disco solo, O Vivido e o Inventado, lançado no final de 2008.

Na minha família não havia músico, portanto minha jornada foi inicialmente solitária, mas nem por isso menos instigante. Ouvia de tudo, principalmente rádio e gostava de Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Tom Jobim, Roberto Carlos, Michael Jackson, Stevie Wonder, Gilberto Gil, Elis, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Tim Maia, João Bosco, Gal, Bethânia...

A partir dos 17 anos, comecei a estudar administração de empresas em São Paulo e depois Recife, quase me formando na UFPE, mas naquele ponto a música já dominava meu coração, pensamentos  e minhas principais motivações. Saí da faculdade e fui para os Estados Unidos, estudar música, com especialização em canto, no Musicians Institute, em Los Angeles – CA. Lá, conheci músicos do mundo todo e formei uma banda chamada Mesmalua, que tinha baixista espanhol, guitarrista colombiano, baterista americano e eu. Após a graduação, fomos os quatro viver em Barcelona,  num apartamento emblemático. Ficava na Calle Esudellers, onde havia apartamentos velhos e baratos para alugar. Havia sido um prostíbulo décadas antes e por isso tinha 14 quartos. Lá moravam 16 pessoas no ano em que fiquei, todos músicos. Estar no meio deste caos, foi um dos momentos mais ricos e importantes de minha formação musical. De lá saíram bandas que vieram a ser e continuam sendo protagonistas da  nova cena musical espanhola. Ojos de Brujo, Macaco, Amparanóia, Dusminguet, todas nascidas ali.

No final dessa estada na Espanha, voltei para Recife ávido por redescobrir a cultura popular. Era o auge do Manguebit, ou Manguebeat, como os gringos preferem chamar. Montei a banda Capitão Severo e em seguida, com três sócios, fundei o estúdio Fábrica, ainda hoje importante pólo de produção musical em Pernambuco. Lá pude experimentar e me aprofundar como músico, técnico de áudio e produtor musical, trabalhando com artistas como Naná Vasconcelos,  Nação Zumbi, Alceu Valença, Lenine, Cordel do Fogo Encantado, Mundo Livre SA, Mestre Salustiano, Arto Lindsay e muitos outros.

Me mudei para Belo Horizonte em 2002, mas vinha constantemente à cidade desde 2000. Fui gostando do jeito do povo, sendo seduzido pelo magnetismo das montanhas, trabalhos bacanas foram aparecendo, até que recebi o convite do grupo de dança contemporânea Primeiro Ato, através do coreógrafo Tuca Pinheiro, para fazer a direção musical e compor a trilha sonora do espetáculo “Sem Lugar”, baseado na obra de Carlos Drummond de Andrade e comemorando seu centenário. Eu que já era fã, tive ali a oportunidade de me aprofundar mais no universo do poeta. Foi um trabalho muito importante em minha carreira, que me deu vários prêmios e projeção na cidade.

Curiosamente, na semana em que minha mudança chegou a BH, fui convidado pela banda espanhola Ojos de Brujo para excursionar com eles pela Europa como técnico de som principal. Deixei a mudança toda empacotada e fui novamente para a Espanha. Foram várias e longas turnês, mas sempre arranjava um jeito de a cada 3 meses voltar a Belo Horizonte. Depois da terceira turnê, comuniquei ao grupo que meu tempo com eles estava terminando, visto que meu objetivo era me dedicar à minha carreira, produzir meu disco e com a quantidade de shows que faziam seria impossível.

O Ojos de Brujo tinha como baixista e criador do grupo Juanlu Leprevost, o mesmo baixista da minha extinta banda Mesmalua e quem produziu os dois primeiros discos do grupo foi o guitarrista colombiano Carlos Jaramillo. Carlos havia sido o guitarrista da Mesmalua e se preparava para produzir seu trabalho autoral. Quando nos reencontramos, percebemos que estávamos em momentos semelhantes, que havia muita identificação musical e que seria perfeito somarmos nossos projetos pessoais em um só projeto. Dessa reunião nasceu o projeto/CD Mesmalua, lançado em 2005 por Carlos Jaramillo e eu. Fizemos o show desse projeto em diversas cidades brasileiras e Europa.

"O Vivido e o Inventado" é meu quarto disco autoral. O primeiro foi da banda Bruxa Verde, que tive em Recife antes de vir para Belo Horizonte. Teve participação em várias canções do meu amigo querido, Naná Vasconcelos, com sua percussão visual e orgânica. O segundo foi Mesmalua, lançado em 2005, em parceria com Carlos Jaramillo, guitarrista, engenheiro de som e produtor musical colombiano radicado em Barcelona, cidade com grande impacto em minha trajetória. Morei duas longas temporadas na Espanha e cada uma delas teve importância essencial em minha múscia.

 

Obra em progresso...

 

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